Vamos abrandar, a medicina dentária não é para ser feita a correr – Parte 2

Nos dias de hoje, há uma preocupação crescente com a qualidade em vez da quantidade, ou seja, preferir um objecto ou serviço no qual valha a pena investir, em vez de uma solução rápida e fácil. Como o Dr. Miguel Stanley explicou na Parte 1 desta série, é sobre esta base – uma abordagem à medicina dentária mais saudável e orientada para o paciente – que a Slow Dentistry é construída. Também visa trazer o foco dos cuidados de saúde oral de volta à excelência em clínica, em vez do foco ser unicamente no lucro. Nesta entrevista, a Embaixadora Global Honorária da Slow Dentistry para a Hungria, a Prof. Katalin Nagy, fala sobre as exigências diferentes que existem na medicina dentária no século XXI.

 
Prof. Nagy, a Slow Dentistry já percorreu um longo caminho. Como tem visto este processo?
Além da minha carreira académica, exerço a profissão de dentista há mais de 40 anos. Lembro-me claramente que, logo no início, quando abri o meu consultório particular na Hungria, as pessoas costumavam medir o sucesso de um dentista pelo número de pacientes que faziam fila na sala de espera. E se um dentista pudesse tratá-los rapidamente, era considerado um dentista muito bom. Sei que foi há quase meio século, mas ainda me lembro disso, e era óbvio que tínhamos um longo caminho a percorrer. Pode certamente imaginar as mudanças que aconteceram no meu país desde então, mudanças que se tornaram ainda mais evidentes quando o SARS-CoV-2 começou a espalhar-se por todo o mundo, mas as mudanças começaram ainda antes disso.
 
A Slow Dentistry só é importante quando se trata de especialidades como endodontia ou cirurgia oral, por exemplo, ou qualquer dentista beneficiaria com esta abordagem?

Gostaria de reforçar que as directrizes da Slow Dentistry são benéficas para todos os dentistas, bem como higienistas e assistentes dentários. Estes pilares não descrevem apenas os direitos dos pacientes, mas também ajudam os profissionais de medicina dentária a assegurarem um trabalho de qualidade e duradouro num ambiente seguro, o que elevará os padrões do seu consultório privado e impulsionará o seu negócio provavelmente mais do que a publicidade que se paga ano após ano.

 
O tempo necessário para efectuar uma consulta é vital para o sucesso do tratamento, para o bem-estar, compreensão e segurança. Acha que os pacientes percebem que têm esse poder?

Acho que, na maioria das vezes, os pacientes do meu país ainda não têm plena consciência dos seus direitos. Às vezes, escolhem um dentista de acordo com o design de interiores dos seus consultórios (o que também acho importante) como um indicador impreciso da qualidade do tratamento.

Há dez anos, depois de ter passado muito tempo em faculdades de medicina dentária, também no estrangeiro, introduzi no currículo do curso de medicina dentária uma disciplina chamada comunicação em medicina dentária. A comunicação não requer apenas competência, mas também tempo para os pacientes e para os profissionais. A ideia da Slow Dentistry ajudou-me a reforçar esta iniciativa que é ensinar comunicação nas faculdades de medicina dentária, o que nos permite ter as conversas necessárias e adequadas, antes e durante todo o processo de tratamento.

 
Actualmente, é Embaixadora Global Honorária da Slow Dentistry para a Hungria. Como é que isso aconteceu e o que pretende concretizar com este papel?

Se considerar onde a Hungria estava há meio século atrás, compreenderá a importância deste papel. Além disso, o turismo dentário é muito popular no nosso país. Os pacientes chegam de outro país para tratamentos dentários completos e geralmente permanecem por cá durante sete a dez dias. Sou muito cética quanto à qualidade e o sucesso desses tratamentos a longo prazo.

Gostaria de criar uma colaboração entre a Slow Dentistry e a Associação Dentária Húngara, através da qual poderíamos atribuir o distintivo da Slow Dentistry aos consultórios que trabalham estritamente de acordo com os princípios da Slow Dentistry. Pode ser uma grande ajuda quer para os pacientes húngaros, quer para os pacientes estrangeiros na escolha do seu dentista, de forma a receberem um tratamento de qualidade num ambiente seguro.

 
O Dr. Miguel Stanley, que fundou a Slow Dentistry, escreveu na primeira parte desta série que “actualmente o público em geral não conhece os seus direitos numa consulta de medicina dentária”. Qual é a sua opinião sobre isto?

Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de trabalhar em diferentes países. A educação em medicina dentária sempre foi famosa no nosso país, e há uma grande percentagem de oportunidades de aprendizagem prática para os nossos alunos. Terminado o curso, os profissionais tendem a esquecer o que aprenderam sobre qualidade e segurança e como aplicar esse conhecimento. A Slow Dentistry resume e estrutura as regras mais importantes que aprendemos ao longo dos anos, sendo que cada profissional da área pode facilmente segui-las.

Também espero que, após o alívio das restrições de confinamento da COVID-19 nós, dentistas húngaros, possamos convidar o Dr. Stanley para um encontro, onde possa transmitir estas mensagens extremamente importantes da Slow Dentistry ao nosso público, porque acredito que uma conversa pessoal com o Dr. Stanley, que tem um talento de comunicação incrível, resulta sempre numa motivação única e insubstituível.

 

Nota editorial: Este é o segundo artigo de uma série de quatro partes sobre a Slow Dentistry e os seus princípios e vantagens. Foi publicado na Roots – International Magazine of Endodontics, vol. 17, edição 2/2021. 

Artigo original: bit.ly/3MWRvlX

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